A educação sem amarras em
'Há Sempre Algo Novo!"

O livro "Há Sempre Algo Novo! - algumas considerações filosóficas e psicológicas sobre a avaliação educacional", de Paulo Meireles Barguil discute aprendizagem com uma roupagem diferente. Defende que é necessário aprender com alegria, manter a curiosidade ao longo da vida, dialogar contentemente com a realidade e com os outros, saber que a verdade se desvela a cada dia, sem nunca ser possuída em sua totalidade; manter-se em constante movimento, rumo aos outros, ao saber e ao futuro, consciente de que só a diversidade nos enriquece.

É impossível não ver no livro a velha crítica de Paulo Freire contra o que chamou de "educação bancária", aquela em que o professor "deposita" conteúdos na cabeça dos alunos para em seguida "sacar", no momento da prova. Paulo Barguil reconhece a necessidade das avaliações - não necessariamente provas. Contanto que seja um momento para redirecionar o processo de ensino, selecionar conteúdos mais apropriados, avaliar também as posturas do professor e as técnicas utilizadas.

O autor fala contra as aulas monótonas centradas no "saber" do professor e dos manuais, as ultrapassadas "provas" e as pouco inteligentes "notas" ou "conceitos". Em sua teoria do conhecimento, ele argumenta quanto à necessidade de manter a alegria, um clima que instigue a criatividade. Diz que o homem conhece em relação com outros homens, pois juntos vão acessando a verdade que se revela aos poucos. Daí a importância da diversidade, do confronto de idéias. Tudo o que a escola conservadora não tem.

Não se pense, porém, que Paulo Barguil faz críticas gratuitas. O que ele expressa com simplicidade, alegria e jeito ligeiramente travesso, não é nada menos que sua dissertação de mestrado em educação pela Universidade Federal do Ceará. Ele sabe que "todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta é preciso recomeçar" (André Gide). Razão por que recorre à sabedoria popular, à música brasileira, aos poetas. Sem esquecer as contribuições de educadores que pontificaram ao longo da história.

Do ponto de vista da teoria do conhecimento, adota a postura de que "é possível conhecer a verdade em um processo bastante complexo". Admitindo, ao mesmo tempo, a possibilidade de retrocessos, de perdas de sabedorias acumuladas (queima de bibliotecas na Antigüidade) e até de aborto de conhecimentos em gestação, como é o caso do saber de pobres, negros e índios, tantas vezes massacrado. Afinal, o homem até elimina a possibilidade de gestação do saber, via extermínio de espécies animais e vegetais, perda da biodiversidade.

Para fundamentação psicológica de sua obra, ele recorre à teoria sócio-integracionista de Lev Semenovich Vygotsky. O russo representa a "segunda onda" do construtivismo, onde reforça a tese de que nosso "nível de desenvolvimento real" (conhecimento atual) pode expandir-se sempre mais. Desde que entretemos na nossa "zona de desenvolvimento proximal", ou seja, permitamos que os outros e a realidade ao nosso redor entrem em nosso mundo, alarguem nosso horizonte.

http://diariodonordeste.globo.com/2000/06/07/030003.htm
 

"Grãos de areia e bolas de gude"

Em outras palavras: o outro, sempre o outro, o diferente provoca nosso crescimento. Nada mais engessador que a mesmice. Tudo o que Paulo Freire disse e fez no Brasil Nordeste ou na África negra , isto é: que ninguém ensina ninguém, os homens aprendem e se ensinam mutuamente, nas relações sociais - em diálogo. Só pelo diálogo é possível entrar na perspectiva do outro e ajudá-lo a sair da ignorância provisória. Postura impossível sem amor. E na qual ambos ganham.

"Há Sempre Algo Novo!" é escrito na primeira pessoa. Uma forma de o autor assumir que quem nele fala é alguém que sente, ama, vibra e até conhece. Cada capítulo remete a idéias provocativas. Um truque que aguça a curiosidade. Assim, a fala sobre o desenvolvimento da ciência tem por título "grãos de areia". "Bolas de gude" chama à leitura das páginas sobre sociabilidade como fator de aprendizagem.

Para discorrer acerca da transitoriedade das explicações científicas, o autor recorre a "bolha de sabão". Como a história da educação é o esforço continuado de "despertar ou pelo menos manter sorrisos da criança", ele propõe novos fundamentos para a avaliação no processo pedagógico no capítulo "sementes de girassol". Bom mesmo é ser "metamorfose ambulante", mas se os pais e professores andam prestes a desistir da arte de educar, vão reanimar-se com o livro que reproduz, entre outras músicas, "Tente outra Vez", de Raul Seixas.

O autor sabe que sua proposta, para ser vivida, exige uma reviravolta de mentes e práticas. Então pede licença para expor a seu modo quando a academia transmite com linguajar sisudo.

http://diariodonordeste.globo.com/2000/06/07/030004.htm

Ademir Costa
Diário do Nordeste - Caderno 3, página 3
Fortaleza, Ceará - Quarta-feira, 7 de junho de 2000

 
www.paulobarguil.pro.br