A árvore, o filho e o livro

“A sabedoria não nos é dada; é preciso descobri-la por nós mesmos,
depois de uma viagem que ninguém nos pode poupar ou fazer por nós”
MARCEL PROUST

... decidiu, então, parar sob uma árvore, desfrutando da maciez da relva amarelada, devido à falta de água, e da sombra, que delineava no solo a formosura da copa do ipê. As perguntas, antes tão borbulhantes, diminuíram a altura e a força das suas ondas, permitindo que o jovem aproveitasse mais o raro momento de descanso.

O tênis foi retirado e colocado a uma certa distância do corpo, numa tentativa de dar um pouco de alívio ao seu nariz, que tanto tem sofrido com o odor proveniente do seu par preferido, que tem perdido, lentamente, as formas e cores originais. A mochila, antes um fardo pesado na longa caminhada, fez às vezes de um travesseiro.

O céu estava azul, com algumas nuvens brancas, as quais se movem graciosamente, formando figuras estranhas, propiciando ao andarilho contar para si mesmo um desenho animado, numa tentativa de se divertir e aproveitar mais o instante de recarregar a moral e as energias, as quais vinham oscilando em virtude da intensidade jornada.

Empós, ele começou a montar outra produção cinematográfica, agora somente com as cenas agradáveis, todas oriundas de sua vida: chupando o dedo polegar da sua mão direita, arrastando-se no chão depois de ter caído da rede, fazendo procissão com a imagem de Nossa Senhora de Fátima na companhia das duas irmãs na sua residência, correndo pelos pátios do colégio Santa Cecília em direção à cantina, andando de bicicleta no quintal da casa da Av. Estados Unidos, jogando futebol no campo da casa nova, entregando o jornal Diário do Nordeste às 5:30 da manhã, beijando uma prima numa cidade do interior do Maranhão, passando no vestibular pela 1a vez, participando de um encontro católico de despertar, jogando vôlei com seus amigos, logrando aprovação num concurso público, viajando de moto na beira da praia, assistindo ao pôr do sol no Pico Alto, bebendo água de coco e comendo caranguejo na beira da Praia do Futuro, ensinando Didática da Matemática para uma turma do curso Pedagógico, fazendo a mudança para o seu apartamento, passeando nas ruas e museus de algumas cidades européias, brincando com seu filho na praça do Hospital Militar, visitando a singela e pacata Tiradentes pela 3a vez, brincando nos parques temáticos da Disney, defendendo a sua dissertação de mestrado, escrevendo crônicas para um site da internet, lecionando na Universidade, fazendo amor com uma antiga namorada, publicando um livro, ingressando no doutorado, ...

Antes que adormecesse, resolveu elaborar a trilha sonora desse espetáculo: Belchior, Beto Guedes, Elton John, Engenheiros do Hawaii, Enya, Guilherme Arantes, Legião Urbana, Milton Nascimento, Oswaldo Montenegro, Raul Seixas, Zé Ramalho. Opsss! ele já ia se esquecendo dos CD's solos do Renato Russo.

Ao abrir os olhos lentamente, descobriu que o dia sequer se despedira dele, pois a noite já chegara, com suas estrelas brilhantes e a sinfonia dos grilos e sapos entoando ritmos diversos, que tornavam ainda mais profundo e sagrado o silêncio que o acompanhara desde o início da sua caminhada até aquela ocasião.

Não sabia se estava com fome. Talvez com um pouco de frio, devido à brisa que brincava com todas as folhas: tanto com as que ainda estavam na árvore, como com as que tinham aceito o convite do vento e alçaram vôo livre. Aos poucos, porém, o seu estômago começou a se movimentar, clamando pela sua atenção, seu afago.

Quando já se preparava para se levantar, foi abençoado por um insight, que viera como um raio que rasga o céu e ilumina regiões distantes numa breve fração de segundo: compreendera, enfim, o porquê daquele famoso dito popular afirmar que "Todo homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro".

Na qualidade de pai, usufruíra de vários instantes de encantamento com o desabrochar do seu rebento; na qualidade de escritor, deliciara-se com o prazer de ter as suas idéias e sonhos lidos e debatidos; mas, e quanto à inicial prescrição? O aventureiro descobriu que o arbusto representa o local em que o Homem repousa durante a marcha, imaginando o amanhã...

Paulo Barguil
28/08/2000

 

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