Morando só.

Há um pouco mais de cinco anos, tenho tido a possibilidade de morar só e vivenciar uma série de coisas bastante interessantes, muitas das quais sequer imaginava serem possíveis.

De início, ainda na porta de entrada, vou logo dizendo a grande desvantagem dessa experiência, que a torna impossível para tantos aventureiros: o alto custo financeiro. Afinal, despesas com aluguel, condomínio, luz, água, comida, itens de limpeza e faxineira deixam de ser preocupações dos seus pais e passam a ser suas, somente suas! :-(

Nem falo dos gastos com combustível, telefone (fixo e celular), provedor de internet e lazer (cinema, barzinho, praia, show, ...), pois eles existem até mesmo para aqueles que ainda usufruem das benesses da moradia dos genitores.

As despesas extras com eventuais consertos e manutenções aumentam consideravelmente quando você decide aumentar o seu território de conquista no mundo. Se antes o que incomodava o seu bolso era algum problema no carro (para aqueles que têm a prerrogativa de considerar ônibus apenas um meio de transporte intermunicipal ou interestadual) ou em algum eletrodoméstico, agora a sua lista é acrescida com vazamentos, rachaduras, além do incremento dos itens sujeitos à depreciação...

Oh!, queira me perdoar a deselegância: deixei você em pé do lado de fora e nem lhe convidei para entrar.

Por favor, sinta-se à vontade. :-)

Deixa eu procurar um lugar para a gente se sentar... Não repare a bagunça, é que a faxineira não veio ontem, aí já viu, né? Não pense que eu sou preguiçoso e incapaz de organizá-lo: se eu deixasse tudo organizado não teria sentido ela vir.

Essa crise econômica está tão violenta que resolvi colaborar com o Filósofo Hipócrita Contemporâneo, afinal se a gente ficar só esperando pelo governo as coisas nunca vão melhorar. Assim, resolvi contribuir com a diminuição do desemprego: enquanto o apartamento estiver desarrumado, ela ganhará o seu pão de forma digna.

Deixando de lado (ou colocando debaixo do tapete) esses empecilhos, compartilho com você alguns dos ganhos que tive a partir do momento em que decidi (será mesmo?) cortar meu cordão umbilical.

O que para muitos é um fardo, para mim a responsabilidade de administrar a vida pessoal é um privilégio. Quanto mais eu posso ingerir sobre aspectos que me dizem respeito, melhor eu me sinto. É gostoso poder vislumbrar horizontes, traçar caminhos, plantar sementes, colher flores, refazer rotas, ...

Ao contrário de me sentir auto-suficiente, tenho, aos poucos, descoberto a importância e a riqueza do outro, o prazer de ter com que conversar sobre as minhas conquistas, os meus fracassos, as minhas esperanças.

Sem dúvida alguma, a maior de todas as conquistas é a possibilidade que tenho de poder estar mais atento às minhas necessidades, me escutando e me conhecendo mais, aprendendo a conviver comigo, com as minhas imperfeições.

Esse papo sócio-filosófico-psicológico-existencial me deixou com uma fome daquelas! Venha conhecer a cozinha e suas maravilhas: geladeira, freezer e máquina de lavar louças. Aqui do lado fica a despensa. Vamos ver se dá para descolar algo para um lanche rápido: geléia de mocotó da colombo, leite molico da nestlé, biscoito cream cracker da fábrica fortaleza, rapadura natural da doce verde, ...

Acho que vou ficar te devendo o lanche para a próxima visita. A lista de compras está pronta há quase uma semana: infelizmente, ainda não tive chance de ir ao supermercado. Você nem imagina como é atarefada essa vida de dono de casa!

Mas não se preocupe: pelo menos um suco feito com polpa dá para rolar. Meu estoque no freezer nunca acaba. Os sabores que tenho são... Eu não acredito: acabou tudo e a faxineira nem me avisou! Sinceramente, estou sem graça.

Você aceita um copo dágua?

Paulo Barguil
03/07/2000

 
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