Eu juro...

Li, recentemente, os resultados de uma pesquisa feita em vários países do mundo, que foi publicada numa conceituada revista de circulação nacional. Cientistas de diversas áreas (psicólogos, sociólogos, lingüísticas, pedagogos, economistas) se reuniram para compreender melhor os motivos que fazem alguém prometer algo para outra pessoa (ou para si mesma).

Existem dois tipos básicos de juramento, que se vinculam a dois tipos de personalidade: i) o virgem - quando a gente jura que nunca vai fazer alguma coisa que ainda não foi feita; ii) o arrependido - quando a gente após ter feito algo uma vez se compromete a não mais fazê-lo. Eles descobriram nessa investigação que as juras que mais são feitas estão relacionadas a conduta sexual, dinheiro, comida e bebida. A ordem delas varia de acordo com a idade, a classe social, o nível de escolaridade e o time que a pessoa torce.

As do primeiro grupo acontecem em diversas situações, dentre as quais foram citadas as seguintes: i) quando um companheiro é flagrado em atitude suspeita ou após cometer o delito, quer dizer, apenas quando ele se torna do conhecimento do outro; ii) quando um parceiro muda drasticamente seu desempenho sexual, normalmente decaindo...; iii) quando ela encontra no computador do casal inúmeras fotos de mulheres lindas e gostosas, apesar de ele jurar não saber como elas foram parar ali. A JURA: Meu amor só existe você na minha vida!

As do segundo grupo costumam se manifestar após constatar que, pelo sexto mês consecutivo e apesar de todas os propósitos expressos verbalmente, a pessoa: i) estourou o limite do cartão do crédito; ii) torrou todo saldo da conta corrente (incluindo o empréstimo que havia feito para equilibrar a contabilidade); iii) vendeu os dólares comprados há mais de um ano para a primeira viagem para o exterior. A JURA: Daqui por diante, vou gastar somente com o estritamente necessário!

As do terceiro grupo são prodigiosas durante a semana, quando a pessoa revela aos seus pares: i) o quanto comeu durante o final-de-semana; ii) que está mais de sete quilos acima do seu peso normal (embora seja estranho dizer isso, afinal já faz tanto tempo que ela não pesa só isso!); iii) que teve que experimentar várias roupas até encontrar uma que coubesse. A JURA: Vou começar na 2a feira meu regime!

As do último grupo acontecem, via de regra, após a pessoa: i) ter tomado um porre horrível e de ter botado aquele boneco (traduzindo: armando o maior vexame...); ii) não ter conseguido dormir, apesar dos três banhos que deram nela e dos quais ela não se lembra!; iii) dos vômitos sucessivos e dos caldinhos milagrosos que parecem estar com a data de validade vencida. A JURA: Eu nunca mais vou beber!

Infelizmente a reportagem não discorreu sobre aquela que considero a mais vã e comum de todas as juras: prometer que nunca mais vai mentir.

Variados são os motivos que levam alguém a omitir, desvirtuar, adaptar, omitir os verdadeiros acontecimentos. Superando os possíveis devaneios sobre o que é real, é fácil compreender que a essência de uma mentira é o desejo básico de sobreviver, ou seja, livrar a sua pele de algum contratempo, mesmo que isso implique numa eventual situação difícil para outra pessoa, seja ela quem for.

Para além de um simples discurso moralista, que condena a mentira a priori, percebo nela um grande valor pedagógico, pois pode contribuir no desenvolvimento da memória e da criatividade. Afinal, essas habilidades são mais do que necessárias para alguém que deseja ter uma carreira longa e vitoriosa como mentiroso.

O cérebro funciona tanto melhor quando mais a pessoa o utiliza. Ao mentir, ela precisa se lembrar com grande desenvoltura do que disse, sob pena de cair em contradição, cometendo, assim, um suicídio moral. Por outro lado, a criatividade é explorada quando ela precisa criar rapidamente uma versão que se adapte ao que foi relatado em outra ocasião e ao que ela deseja disser.

Cá para nós, quem é capaz de evitar uma boa lorota, principalmente quando ela rende mais uma crônica?

Paulo Barguil
24/06/2000

 
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