Aprendendo a (não) esperar

Tenho tido ao longo da minha breve passagem na mãe Terra a oportunidade de aprender uma série de lições: algumas mais interessantes, outras com menos encantos; algumas mais fáceis, outros que reclamaram mais esforço; algumas mais rápidas, outras que demandaram mais tempo; algumas mais óbvias, outras nem tanto...

Porém, uma das que mais marcou a minha vida aconteceu há poucos meses. Não sei bem como é que tudo começou: se foi com o acidente de carro que o inutilizou para sempre, o qual era como um talismã para mim; se foi o término nada convencional de um relacionamento; se foi o nascimento do meu filho Samuel numa situação não planejada e bem aquém do que sempre desejei; se foi a não aprovação na seleção do doutorado em Educação; ...

O mais importante, creio, não é (tentar) determinar os prováveis fatores que propiciaram uma mudança tão radical na minha forma de viver, mas degustar os frutos dela advindos.

Na infância e adolescência busquei com muita tenacidade e insistência respostas para perguntas das mais diversas áreas, notadamente sobre religião e transcendência. Se não lhe parecesse um absurdo, diria que desde terna idade tenho sido um filósofo, tamanha a voracidade que me dediquei a investigar os mistérios da vida.

Apesar de ainda estar beirando os 32 anos, (pretensiosamente) acredito que alcancei a tranqüilidade, a serenidade que se costuma dizer que só vem depois de muitos anos, não sendo privilégio de muitos a sua conquista, tão pouco o seu usufruto...

Intróito realizado, deixe-me falar um pouco dessa mudança que tenho propagado.

Devo alertar, de saída, que a utilização da dimensão verbal (escrita ou falada) é uma das áreas contempladas pela construção de uma nova compreensão da vida. Assim, não pense ser minha intenção lhe convencer de algo, embora às vezes eu tenha breves recaídas, pois julgo que isso é uma tremenda perda de tempo!

A vida é uma benção, uma maravilha, um mistério, uma manifestação encantadora do poder da natureza. Assim, cada instante se assemelha ao poder de uma gota dágua: tão frágil, mas tão forte; tão singela, mas tão complexa. Os meus esforços atuais se voltam ao desafio de usufruir das oportunidades que margeiam o meu cotidiano fantasiado com diversas alegorias: pessoas, sons, cores, comidas, odores, idéias, ...

A elas é que tenho dedicado minha energia, vibração, sensibilidade e inteligência. Chega de debates estéreis, de esforços para controlar a vida, os acontecimentos, as pessoas (seus valores, crenças e sentimentos). Tudo isso se revelou extremamente improdutivo e inútil. Julgando-me uma pessoa sensata, deduzi, após tantos fracassos, que minha estratégia de administrar a vida estava (no mínimo) bastante equivocada.

Após essa constatação, desisti de querer gerenciar a vida e, inspirado nos meus tempos de criança, tenho brincado de faz-de-conta com ela nas mais variadas circunstâncias: faz-de-conta que sei dormir, que sei comer, que sei estudar, que sei namorar, que sei viajar, que sei pensar, que sei amar, que sei sorrir, que sei viver, ...

A cada dia, cresce a minha vontade de descobrir folguedos e estripulias escondidos nos inúmeros recantos do universo. Desisti de querer controlar, de querer entender tudo, de querer explicar tudo, de querer saber tudo (e de preferência mais do que os outros). Contento-me em saborear os brinquedos que conquistei, embora sinta saudade dos que por diferentes motivos já se foram...

Minha receita (nada convencional) para alcançar esse novo parâmetro existencial é a união do pouco que sei da filosofia zen com os preceitos que tive oportunidade de aprender da religião cristã. Os pontos de contato dos ensinamentos de Buda e seus seguidores com as mensagens de Jesus são inúmeros, os quais têm permitindo que eu descubra cada vez mais riquezas caprichosamente guardadas nas estradas e atalhos da vida.

Você aceita um pedaço desse bolo?

Paulo Barguil
14/06/2000

 
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