Uma crônica é um ovo!

Escrever uma crônica é como fecundar um óvulo: são milhões de idéias (os espermatozóides) navegando em altíssima velocidade em direção a uma folha de papel. Aquela que chega primeiro recebe toda a atenção do(a) gestante, embora isso, por si só, não seja a garantia de que vá nascer. Sim, pois no mundo literário, muitos são os contraceptivos que ameaçam a integridade do rebento: falta de tempo e de inspiração, perfeccionismo, autocrítica exacerbada, desinteresse, ...

Quando, enfim, depois de alguns minutos, horas, meses, anos - depende do estado emocional, intelectual, físico, sexual, financeiro e espiritual do(a) escritor(a)! -, ela nasce, a alegria da mãe e do médico (no caso, o editor-chefe) é enorme, embora caiba a esse último a (por vezes árdua) tarefa de realizar os testes que assegurem que ela veio ao mundo perfeita (sem erros de gramática, de concordância, ...).

É bem verdade que o acesso ao serviço de pré-natal tem aumentado consideravelmente, mas ainda é grande o número de genitores que ignoram a importância de tal acompanhamento durante o período gestacional, por desconhecerem as inúmeras problemáticas advindas de indesejáveis aberrações genéticas, que poderiam ser tratadas adequadamente se descobertas em tempo hábil.

Há de se dizer, ainda, que existem aquelas que nascem de parto normal, sem maiores complicações, para alegria de todos os membros envolvidos. Porém... porém, há aquelas que insistem em nascer de cesariana (com horário marcado, como é o caso da maioria das minhas, que costumam surgir nas 4as de noite...). Registre-se, ainda, a ocorrência de crônicas que desafiam o fórceps e se negam a sair do útero a todo custo, levando à loucura os que por ela esperam, num misto de expectativa e aflição.

Assim como no mundo humano, é relativamente normal a ocorrência de crônicas gêmeas, as quais também podem ser univitelinas (várias produções que discorrem sobre o mesmo assunto, com apenas algumas mudanças) e bivitelinas (quando o tema de uma é totalmente diverso da outra). Tanto umas como as outras exigem dos provedores uma grande disponibilidade, que precisa estar atento às especificidades de todas elas, sob pena de criar um indesejável clima de competição e ciúme entre elas.

O mais importante é conseguir expressar a todas elas a sua alegria e gratidão de tê-las como manifestação da sua existência, sabendo que os destinos dela não lhe pertencem, nunca.

Alegro-me em poder contemplá-la, agora, quase pronta. Lembro-me, por fim, do início, de quando tudo o que eu tinha era uma folha de papel e milhões de idéias...

Paulo Barguil
03/05/2000

 
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