O riso cearense - III

“Não existiria som se não houvesse o silêncio
Não haveria luz se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noite, não e sim”
LULU SANTOS & NELSON MOTA em Certas Coisas

Meu espírito investigador, questionador, nunca me permitiu usufruir de longos momentos de tranqüilidade, calmaria. Acostumei-me a diante de qualquer pessoa, acontecimento, objeto, pensamento, construir hipóteses, checar as diferentes variáveis, procurar a harmonia, enfim, certificar-me da solidez (e da fraqueza) do que se apresentava a mim.

Com o passar dos anos, talvez desgostoso com a precoce queda de cabelo, comecei a compreender a relatividade dessas elaborações cognitivas, que, por vezes, falam tão pouco do mistério da vida. Assim, aos poucos, contento-me com os sonoros acordes da orquestra do silêncio.

Porém, de quando em vez, ressurge a antiga mania de cutucar o que surge na minha frente.

Na crônica passada (http://www.patio.com.br/cronica/2000/fevereiro/o_riso_cearense_2.htm), lancei, orgulhosamente, respaldado pela fama interplanetária do Abu Zadim, o curso "Como ficar vivo morrendo de rir". Qual não foi a minha surpresa - sendo sincero, a minha decepção! -, ao constatar que ninguém me enviou as respostas lançadas na primeira aula.

Como devo interpretar a sepulcral falta de notícias? Reluto a acreditar que nenhum dos sapientes leitores deste espaço cultural tenha se interessado pelo conteúdo oferecido. Exercendo a minha autocrítica, conclui que, talvez, a minha explicação foi permeada de muitos casos, os quais não foram devidamente explicados. Assim, resolvi reapresentar o conteúdo, usando, para tanto, novos exemplos.

No encontro inaugural, iniciei a explicação sobre os tipos de piada. As melhores representantes do primeiro grupo são as notícias vinculadas nos mais conceituados meios de comunicação. A política e a economia nacionais eram as rainhas do mercado, porém o esporte vem crescendo significativamente na atual conjuntura. Eis um exemplo:

Quando eu escrevi que o desembarque do 1o navio no porto do Pecém não aconteceu devido aos fortes ventos (http://www.patio.com.br/cronica/2000/janeiro/a_logica_do_tasso.htm), leitores membros e simpatizantes da Patota Sagaz Demagógica Blefadora escreveram indignados com a notícia, prometendo me processar por calúnia, difamação e injúria, a teor dos artigos 138 a 140, do Código Penal. :-(

Nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio...

Eis que na semana passada o evento se repete, desta feita em dose dupla: nos portos do Pecém e do Mucuripe, que fica em Fortaleza. A mercadoria, no caso uma plataforma de petróleo (que pesa cerca de 11,7 mil toneladas e tem 85 metros de altura , sendo 55 metros de torre), será levada a Recife e de lá será rebocada por navio para a capital alencarina. :-))) (http://www.opovo.com.br/200002/8/economia/08EC0305.htm).

No segundo grupo, estão aquelas que, a partir de uma nova maquiagem, um detalhe da informação é explorado de forma criativa e debochada, dando uma nova dimensão ao noticiado. Lá vai uma amostra:

Depois dos samurais, dos lutadores de karatê, dos kamikazes, o Japão brinda a Humanidade com uma nova modalidade de guerreiros (por favor, nem pense que estou falando do Pokémon!). A onda agora é feminina: as mulheres com salto alto. Existem mulheres usando botas com sola de até 20 cm! A versatilidade é tremenda, pois permitem que suas usuárias vejam coisas que antes não lhes era possível. O fato de algumas mulheres não estarem conseguindo se equilibrar, o que tem provocado algumas quedas e queixas freqüentes de dores de coluna, não tira o brilho inerente à nova moda. Acidentes de carro provocados por donzelas (peruas?) que insistem em dirigir com salto devem ser interpretados de forma branda, afinal a tecnologia exige dos mortais um grau mínimo de colaboração... (http://www.uol.com.br/fol/foto_grande/in00021202.htm)

Paulo Barguil
17/02/2000

 
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