Cri-cri - II

“Não se renda às evidências, não se prenda à primeira impressão”
HUMBERTO GESSINGER

Não ouso discordar de quem afirma ser o Português uma língua de difícil aprendizagem. O que não deve ser utilizado para justificar erros de diferente natureza.

Ao folhear o convite de formatura dos concludentes do curso de Direito, da Universidade Federal do Ceará, de 99.2, compreendi que, mais do que o ensino maciço das regras gramaticais, há outras coisas que precisam, com maior urgência, serem ensinadas e aprendidas no nosso amado Brasil: o senso estético, a guloseima literária, o respeito ao semelhante, ...

De início, saltam aos olhos a beleza e a riqueza da apresentação, a qual segue o tradicional roteiro.

Por acreditar que um convite de formatura deve estar incólume de qualquer deslize, incomodou-me um pouco a não observação da ordem alfabética na relação dos membros da Comissão de Formatura (Ana Paula e Anna Isabel antes de Aline), bem como na lista dos formandos (Aline antes de Alexandre). Ignorando esse lapso, decidi continuar na leitura do mesmo, sem ao menos desconfiar do que estava a me esperar...

Na dedicatória a Deus, encontrei quatro vezes o mesmo erro, o qual é vergonhoso, por terem sido seus autores estudantes de nível superior (não me venha cogitar a possibilidade de ter sido um equívoco na digitação, pois no verso do convite está escrito: "revisado pela comissão de formatura"): "... Dai-nos sabedoria para divisar-mos o bem do mal; para aceitar-mos o inevitável e torná-lo útil; para aceitar-mos nosso próximo como ele é; para lutar-mos por um mundo fraterno e justo." (grifo meu) (J.V.S.)

Talvez esse fosse um aviso para eu terminar com a leitura, mas eu não me dei por vencido. Resolvi avançar até a última mensagem, no caso a destinada aos mestres:

"Mestres: homem algum poderá revelar-nos, senão o que já está meio adormecido na aurora do nosso entendimento. O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura. Se ele for verdadeiramente sábio, não nos convidará a entrar na mansão de seu saber, mas nos conduzirá antes ao limiar de nossa própria mente, porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem. E assim como cada um de nós se mantém isolado na consciência de Deus. Assim cada um deve ter sua própria compreensão Dele. E sua própria interpretação das coisas da Terra." (J.V.S.)

Ainda na primeira frase, meus ouvidos revelaram o deguste anterior daquelas palavras. Ao chegar em casa, confirmei a minha impressão. Eis o que afirma Gibran Khalil Gibran, em sua fabulosa obra O Profeta, sobre o ensino:

"Nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio adormecido na aurora de vosso entendimento. O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura. Se ele for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na mansão de seu saber, mas antes vos conduzirá ao limiar de vossa própria mente. (...) Porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem. E assim como cada um de vós se mantém só no conhecimento de Deus, assim cada um de vós deve ter sua própria compreensão de Deus e sua própria interpretação das coisas da terra".

Das 115 palavras constantes do original, o indivíduo J.V.S. procedeu às seguintes alterações: um acréscimo (Mestres), duas supressões (nada, de vós), quatro trocas (nenhum por algum, só por isolado, conhecimento por consciência, de Deus por Dele) e algumas adaptações (vos por nos, vós por nós, vosso por nosso). Será que elas justificam a pretensa autoria daquele trecho tão conhecido do inconfundível poeta libanês?

O fato de existir na comissão de formatura alguém cujo nome se encaixa nas inicias aludidas é uma terrível coincidência! Afinal não acredito que um quase bacharel de Direito seja capaz de ser prestar ao vergonhoso papelão de surrupiar a produção de outrem na intenção única de auferir para si os louros da vitória.

Que susto eu tomei: por um instante, pensei que estava entrando na praça mais um profissional cuja especialidade é advogar em causa própria!

Paulo Barguil
19/01/2000

 
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