Cri-cri

“A última palavra é a mãe de todo o silêncio
Façamos silêncio para ouvir o último suspiro
Descanse em paz a mãe de todas as batalhas”
HUMBERTO GESSINGER

Não foram poucas as pessoas que já disseram que eu sou cri-cri, que me apego muito às palavras. Às vezes, esses comentários são feitos de forma amena, outras vezes, nem tanto...

Decidi, então, investigar algumas causas que me fizeram agir dessa maneira, a qual nem sempre é bem recebida e interpretada por quem convive comigo.

É estranho que eu seja tão zeloso com o Português, afinal essa matéria nunca foi a minha preferida na escola, tendo sido a única que me deu um knock down na 7a série, o qual não foi suficientemente forte para me fazer repetir de ano. Talvez, então, a questão resida na qualidade da comunicação que eu desejo estabelecer com quem me cerca: quero entender e ser entendido, evitando, sempre que possível, contratempos.

Talvez, por isso, nunca tenha encarado uma terapia na linha da Psicanálise: não tanto por medo de que Freud desnudasse os mistérios da minha sexualidade (complexo de Édipo, por exemplo...), mas por receio de que eu fosse pego numa das inúmeras armadilhas de palavras engenhosamente explicadas por Lacan.

É claro que, de quando em vez, faço (e gosto de fazê-lo...) uso de expressões de duplo sentido, bem típico do meu jeito brincalhão. Mas, via de regra, gosto de utilizar as palavras apropriadas nos momentos devidos. Não acho que exista mal nisso.

Reconheço, porém, que sou pouco paciente para repetir o que acabei de falar. O motivo dessa minha irritação é o sentimento de que o meu interlocutor não estava prestando atenção ao que lhe dissera. Embora, por vezes, ele retruque afirmando que minha fala não foi suficientemente audível.

O problema aumenta quando alguém fala algo que não entendo ou não concordo e eu expresso a minha dúvida ou minha discordância. Aí, o negócio fede... Sinto-me, então, perdido e injustiçado. Costumo estar atento ao que acontece ao meu redor, curiando tudo aquilo que me desperta o interesse e guardando com bastante zelo as informações recebidas.

Estava ontem esperando um trabalho numa gráfica, quando comecei a folhear uma monografia recém concluída. Encontrei, então, uma citação que me interessou, cuja autora era BARONE, ano 1991. Na nota de rodapé, o ano da publicação passou para 1990. Pulei imediatamente para as referências bibliográficas, convicto de que lá encontraria resposta para a minha dúvida. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que o nome da autora fora redigido como BARONI e o ano mudara para 1992...

Tudo bem que eu posso me esforçar e ser menos cri-cri (juro que já melhorei!), mas será que as pessoas poderiam ser um pouquinho mais zelosas ao fazer uso das palavras? Quando será que elas vão aprender que as informações que elas transmitem são utilizadas por outras?

Paulo Barguil
19/01/2000

 
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