A arte de enganar - III

Devido à proximidade do final do ano, desejoso de ficar de férias mais cedo, o professor de História, inspirado nos ideais socialistas e nas aventuras de Robin Hood, anunciou à turma:

– Aqueles que estiverem com notas melhores vão ceder alguns pontos para os seus colegas menos afortunados!

Antes que você me acuse de estar seguindo a escola de crônica-ficção, retruco afirmando que não tenho o mesmo dom de Abu Zadim e Eduardo...

Ao relatar para Alfredo Lopes, colega do Tribunal, os últimos acontecimentos atinentes à minha prática docente, pois o semestre está acabando (Graças a Deus!!!), foi que ele me brindou com o causo que descortina estas linhas. É com ele que tenho trocado algumas das minhas experiências de professor da Universidade Estadual, no curso de Pedagogia. Dentre outras coisas, essas prosas renderam a sua crônica de estréia na Crônica do Dia.

O episódio que aconteceu há alguns anos no Colégio 7 de Setembro, coincidentemente o mesmo que o Duju freqüentou durante toda sua vida escolar. Aumentando a ironia do destino, a disciplina em tela foi aquela lecionada por ele, quando para lá retornou na tentativa de exorcizar o seu passado estudantil. :-)))

Desnecessário dizer que a reação dos melhores alunos daquela turma, dentre os quais o Alfredo se inclui, protestaram veementemente e ameaçaram levar o caso à Diretoria. Propuseram, como alternativa, que o lente desse os pontos que quisesse a quem desejasse, mas que não tocasse no rendimento dos que tinham trabalhado duro. Felizmente, o professor aceitou a sugestão, mas não sem antes acusar os rebeldes de serem gananciosos e desalmados!!!

Apesar da expectativa inicial, dos sonhos acalentados durante anos e do desejo de algum dia trocar meu serviço burocrático por uma atividade mais interessante, meu 1o semestre não foi a lua-de-mel ansiada, antes um deserto, que generosamente possuía alguns oásis. Os atrasos dos alunos no início das aulas; as ausências à sala de aula além do limite determinado legalmente; o pouco interesse pelo conteúdo; as conversas intermináveis e em alto tom; a demora excessiva para retornar do intervalo; as solicitações, por vezes agressivas, para que a aula fosse encerrada antes do horário acordado no início do período letivo: eis alguns motivos para o meu sentimento de frustração.

Porém, o que mais me chateou não foi nada disso: ao contrário do que profetizaram (e me garantiram), nenhuma das minhas mais de 100 alunas me cantou! :-(((

Paulo Barguil
15/12/1999

 
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