A arte de enganar - II

"Fiz questão de esquecer que mentir para si mesmo
é sempre a pior mentira"
DADO VILLA-LOBOS/RENATO RUSSO/RENATO ROCHA

Antes que vocês percam o interesse pela continuação da 1a parte, publicada há quase três semanas, cá estou para compartilhar um pouco das minhas cruzadas pedagógicas. É assim que muitas vezes me sinto: guerreando devido à uma questão de fé, de amor. Pelo menos, eu estou lutando por algo que acredito (sabe Deus até quando...)!

Um amigo meu, que leu a crônica anterior, disse-me não acreditar que eu tenha dito aquilo logo no 1o dia de aula. Há um livro do Hamilton Werneck, Se você finge que ensina, eu finjo que aprendo, publicado pela Vozes, em que a questão da farsa, da mentira no ambiente escolar, é denunciada de forma profunda. Quando me propus a ser professor, decidi que o diálogo e a sinceridade fariam parte da minha práxis.

Assim, apesar de ser fã da Legião Urbana, não concordo com o verso da canção Quase sem querer que inicia esta crônica. Tanto assim, que sempre digo, com carinho, para os meus pupilos:

– O maior responsável pela aprendizagem de vocês é cada um. Eu não acredito que seja possível ensinar, ainda mais para vocês, adultos. O meu papel é trazer material didático, propor questões, aprofundar dúvidas, incentivar a procura, exercitar a curiosidade. Eu não posso fazer as sinapses por ninguém: cada um é que decide o que deseja fazer da sua vida. Assim, eu não me proponho a falar, falar, falar... Eu não acredito que a verborréia seja saudável para ninguém.

É claro que a transformação das relações educacionais não se dará meramente através de belos discursos, afinal é exatamente isto que critico: a crença no poder das palavras. Mas, é necessário que os véus da mentira sejam arrancados, que as muralhas da vergonha sejam derrubadas, permitindo, assim, surgir o encantamento do aprender, a alegria do partilhar, o prazer de ensinar.

Antes de terminar, relato mais um caso que aconteceu comigo numa dessas 6as feiras de noite:

– Professor, eu vim aqui só para justificar a minha falta.

– De que aula?

– A de agora. Eu não vou poder ficar.

– Certo. O que você espera que eu faça quando justifica a falta?

– Bem... você coloca um F e no canto direito inferior um J pequeno. Assim, se eu precisar dessa presença no final do curso, você saberá que faltei nesse dia porque precisei.

– Ah...

Ou seja, na verdade, ela estava pedindo a presença!!! Infelizmente, eu estava certo: aluno costuma pensar que professor é bicho besta... :-(((

Paulo Barguil
20/10/1999

 
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