A arte de enganar - I

– Aluno costuma pensar que professor é bicho besta, que pode ser facilmente enganado.

Foi o que eu disse para os meus pupilos no início do semestre, logo no 1o dia de aula. Eles olharam para mim meio sem graça, como se não estivessem acreditando que eu havia dito aquilo. Antes que eles ousassem discordar de mim, lembrei-lhes que eu havia estudado um pouco mais do que eles, ou seja, tinha vivenciado essa crença por vários anos. Agora, que estou do outro lado, minha percepção dos acontecimentos é dupla: vejo-me como professor e como estudante.

Não tinha a ilusão de que um simples aviso fosse suficiente para inibir práticas seculares, milenares até, que permitem a perpetuação daquela espécie (aluno). Afinal, a seleção natural é impiedosa: aulas desvinculadas da vida; professores que se aproveitam da situação para externar os seus recalques e insatisfações; provas que têm, quase sempre, ter um caráter meramente verificatório, conforme já denunciara Luckesi.

Não vou fazer agora um discurso pedagógico falando dos pressupostos e das conseqüências das práticas avaliativas sobre a vida das pessoas. Algum dia, quem sabe, eu consigo fazer um resumo-crônica da minha dissertação de 232 páginas, que versa sobre o tema... :-)

Apesar de saber que é na realização das provas que eles costumam revelar o quanto desenvolverem os seus dons artísticos, o que é plenamente justificado, porque ninguém quer ser reprovado, não posso negar que fui surpreendido quando na semana passada, ao aplicar uma prova, dos 27 alunos que freqüentam a disciplina, apenas 12 compareceram à 1a chamada! Na aula seguinte, lá estavam os ausentes, com a cara mais lisa do mundo, como se nada tivesse acontecido. Ah, se eles soubessem o que os aguarda na 2a chamada... Ops! Bem, você sabe, é claro que eu serei mais rigoroso na correção, afinal eles terão mais 3 semanas para estudar e o conteúdo será o mesmo.

Felizmente, na universidade, os alunos não se preocupam apenas com as provas: eles têm o maior esmero para solicitar o abono de faltas. As justificativas ouvidas para explicar a ausência na sala são variadas. A mais trivial é a que estava doente, mas somente mediante atestado médico é que coloco a presença. Há, porém, quem seja mais criativo. Vou relatar para você um caso que aconteceu na 6a feira passada, 1o de outubro, de noite:

– Professor, não vim à aula passada porque foi o casamento da minha irmã.

– Certo. Traga o convite que eu abono a falta.

– Mas professor, o casamento foi civil.

– Casou no civil de noite?

– De noite foi o jantar!

– Não se preocupe, você pode faltar até 25% das aulas. Só espero que não apareçam outras núpcias para você ir durante esse semestre...

Paulo Barguil
03/10/1999

 
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