Dependência

Não estava nos meus planos escrever uma crônica neste feriado de 7 de setembro de 1999, quando comemoramos a ... (glup!) Independência do Brasil, mas a prosa do Eduardo fez cócegas nos neurônios da Turma B. Antes que os politicamente esclarecidos gritem e me chamem de alienado, pois, segundo eles, não temos motivos para crer na propagada independência, eu retruco indagando onde eles estavam nas aulas de Português, especialmente nas lições de análise sintática.

Ora, prezado(a) leitor(a), será que eu vou ter que lembrá-lo(a) que D. Pedro I proclamou foi a Independência do Brasil tão-somente em relação a Portugal? A questão é que influenciados pelas leituras dos heróis gregos (ou seria uma manifestação da forte presença judaico-cristã na nossa cultura?) cobramos do nosso primeiro monarca a redenção suprema: em relação a todas outras nações... :-)

Aproveito a ocasião para socializar uma indagação sempre recorrente nas minhas (pseudo) reflexões: "O que é ser brasileiro?". Acredito que para encontrar uma resposta satisfatória é necessário, antes de mais nada, denunciar a baboseira que é se comemorar os 500 anos do descobrimento (sic) do Brasil. O desafio posto é escrever uma História que resgate o nosso passado indígena, tribal, coletor, profundamente ligado à natureza. Urge reconhecer o preconceito racial – uma das manifestações mais irracionais de uma espécie que se vangloria por pensar, que denuncia o quanto ainda somos animais... – e pedir perdão aos nossos irmãos que devido à coloração diferenciada da cútis são segregados das mais diversas formas.

A exploração do (bicho) Homem pelo (bicho) Homem não é novidade na face da terra.. É triste e revoltante ver (quando temos a coragem de abrir nossos olhos!) que milhões de crianças (independentemente da idade) continuam mendigando por água, pão, moradia, escola, lazer, saúde, trabalho, ... A Humanidade terá dias melhores? Não sei, mas confesso que espero e luto que sim, pois "no horizonte do Brasil, já raiou a liberdade".

Eu não entendo por algumas pessoas falam tão mal do Filósofo Hipócrita Contemporâneo! Ele é mais um fruto (podre, diga-se de passagem...) de uma estrutura sócio-político-econômica voltada ao atendimento dos interesses estrangeiros. Nada tenho contra os gringos (e as gringas...), admito. Afinal, o conceito de país acaba, na maioria das vezes, por afastar as pessoas. O senso de identidade (seja local, regional, nacional) pode ofuscar o que o atributo mais geral nos brinda: somos gente.

Gostei de matar saudade do Hino da Independência: realmente, somos, conforme escrevera Evaristo Ferreira da Veiga, "brava gente brasileira!".

Paulo Barguil
07/09/1999

 
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