Sábado à noite

"Quem com ferro fere, com ferro será ferido"
PROVÉRBIO POPULAR

Garimpando opções do que fazer num desses sábados, aceitei o convite do casal Duju & Déa para assistir à peça 68.com.br, de Ricardo Guilherme, às 21 horas.

Estacionamos o carro no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, que fica próximo ao Teatro Radical, por volta das 20:25, o que nos levou a contragosto, pois estávamos com fome, a deixar para depois do espetáculo a degustação de uma pizza.

Já de ingresso na mão, ficamos do lado de fora aguardando a hora para entrar, curtindo uma deliciosa brisa. Foi quando avistei no quarteirão seguinte algo que poderia ser uma barraca de cachorro-quente. A menos de 3 metros do local, tive um rasgo de compreensão dos efeitos que a fome provoca nos viajantes do deserto. Minha miragem transformara-se numa mercearia modesta, daquelas que vendem cigarro, pão, arroz, cachaça e outros itens indispensáveis para uma casa.

Ao contrário dos meus amigos, que ficaram, literalmente, no meio da rua (sem saída), decidi ir em frente. Dentre as opções que meus olhos conseguiram identificar, escolhi um pacote de biscoitos champanhe, que me custou R$ 0,50. Minha felicidade em compartilhar o alimento, lição belamente ensinada por Cristo, durou poucos segundos: ambos, por motivos diferentes, se recusaram a experimentar o quitute – a Déa, porque não querer atrapalhar o apetite; o Duju, por ter descoberto que eles não eram da Bauducco, mas de uma modesta fábrica de fundo de quintal...

A frustração inicial foi rapidamente superada com a afirmação de meu melhor amigo de que aqueles inocentes biscoitos provocariam no dia seguinte um desarranjo intestinal. Até que comecei a investigar a causa para aquela declaração: despeito – por não ter a coragem e a simplicidade para colocar em sua refinada região palatal tão singelos produtos – ou informação abalizada – fruto de uma experiência anterior?

Não foi a absoluta falta de glicose para aprofundar minhas pesquisas sobre essa importante questão que me fez engasgar, mas a declaração do editor-chefe de que as crônicas assinadas por este húmile escritor estavam sem graça, sem assunto, ... Fiquei imaginando que ele, inspirado pela reforma ministerial, estava começando a me fritar. O resto da noite fiquei com aquele pedaço de frase entalado na garganta. Não teve refrigerante que desse jeito! :-(((

Ao chegar em casa, folheando alguns sites, encontrei o que me ajudou a suportar aquela crítica disparada a seco: "Que me desculpem os leitores, se há algum. Não penso em vocês. Pouco me importa o que pensem, o que gostem. Não dependo de vocês, de nenhum de vocês, para realizar meu desejo – masturbatório, como queiram – de escrever".

Será que ele vai reagir como o FHC, que pediu para a gente esquecer o que ele havia escrito antes de ser presidente?

Paulo Barguil
24/07/1999

 
www.paulobarguil.pro.br