I ou J?

"As palavras do mundo estão loucas para formar sentenças"
BACHELARD

Que Gaston me perdoe a provável imprecisão da citação, mas se ele aqui estivesse entenderia, da única forma que é possível se conhecer – com a inteireza do ser –, os prazeres que encheram de brilho os meus olhos, as minhas mãos e os meus ouvidos.

Como diz o Chico, matuto típico da bela praia do Uruaú, localizada no município cearense de Beberibe, "os tempos mudaram". Não me refiro somente ao desprezo das antigas crenças – segundo as quais a 6a feira Santa deve ser guardada, do contrário o leite tirado da vaca neste dia vira sangue e a tentativa de fazer a barba resulta em garganta cortada –, mas ao fato da penitência do casal Inês e Jeovah Maciel neste ano ter sido ciceronear este escritor ao longo da bela e agradável costa.

Passeio de buggy, banho de mar e de água doce numa bica natural a 10 metros do oceano. Para repor as energias: camarão no alho e óleo, ova e batata doce fritas, deliciosamente servidos no bar do Belarmino. A despeito da satisfação, não pude deixar de registrar a minha queixa diante da recusa do solícito proprietário em receber o pagamento de minhas mãos, sob a alegativa de estar seguindo ordens do "seu Jeová"... Fazer o que, né? Da próxima vez, eu arrebento a boca do balão: peço de tudo, sem me preocupar com o derradeiro momento! :-)))

O que dizer da lagosta, da salada de feijão verde e de outras maravilhas preparadas pelo Nova – colega dos rachas de futebol das 4as feiras a noite –, que é o titular da cozinha dos meus anfitriões? Ah, ainda bem que o vizinho não apareceu e trouxe bolinho de bacalhau: já pensou se eu tivesse que dizer "não" ao bondoso morador, que por coincidência é meu chefe? "Deus me live (sem o r mesmo)!", como diz a todo momento a saltitante e elétrica Malu.

Para terminar o dia em grande estilo, nada como ficar jogando sinuca, beber água de côco tirada na hora do coqueiro, ouvir piadas e dar gargalhadas que acordam a vizinhança, sentir a brisa tocando no corpo e nas folhas das árvores, ao mesmo tempo em que empurra as nuvens, anunciando para os sábios pescadores que a chuva está por vir...

Nas aulas de catecismo de mais de 2 décadas atrás, havia aprendido que a placa INRI, afixada no topo da cruz de Jesus, significava "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus", pois o Latim não dispunha do J, sendo o I a letra que mais se aproximava do som desejado. Fiquei, então, com uma pena danada dos romanos: não bastasse terem o fardo de terem crucificado Cristo, eles não conheceram o J. Já pensou se eles soubessem que o I ia ser vizinho do J no alfabeto?

Para aumentar a tristeza deles, só a minha recente descoberta: a parceria destas letras formou uma dupla magnífica: Inês e Jeovah!

Paulo Barguil
14/07/1999

 
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