Atrasos de viagem

Parece promessa, mas não é: a mesma calça que vesti quando vim para os Estados Unidos estou usando agora, no momento em que retorno a Fortaleza. A minha afirmação não se baseia numa suposta lista diária das roupas, mas tão somente na lembrança, ainda viva, do que ocorreu no dia 07 de junho.

No dia 05, durante a arrumação da mala, verifiquei que a sobredita calça estava precisando ser lavada. Deixei-a na casa dos meus pais, pois já havia dispensado a faxineira-lavadeira-cozinheira até a data do meu retorno. Na véspera da partida (06), já havia separado o vestuário da minha partida. Você não pode imaginar a onda de sentimentos – surpresa, admiração, espanto e pânico – que foi tomando conta do meu corpo quando me dei conta que minha amada genitora havia me enviado a calça preta... de uma das minhas irmãs!!! :-(((

Sorte minha que tive tempo para, no caminho do aeroporto, fazer um eficiente pit-stop na casa dos meus pais e destrocar as peças. Na próxima vez, juro que não viajo sem pedir a benção da minha mãe... Este pequeno atraso foi o 1o de uma série de outros que ocorreram nestas últimas 3 semanas. Na madrugada seguinte, o vôo da VASP (VP 488) – de Salvador para Miami – atrasou cerca de 2 horas, tendo nos possibilitado perder a conexão que nos levaria a Houston, Texas.

Mas, nenhum deles se compara com o último (espero que seja!) que aconteceu horas atrás e que me fez avançar ainda mais nas lições ZEN. Numa dádiva do Universo, uma das malas que desembarquei em New York não chegou em Miami. Lembrando-me do ausente Abu Zadim Contentim (onde está você, mestre? Talvez em algum retiro espiritual de 3 meses. Afinal, sua última pregação foi dia 17 de maio), prometi que se ela aparecesse não amaldiçoaria a fiscalização da Receita Federal de São Paulo. No balcão de reclamação da Continental, fui informado que existia uma possibilidade de a minha mala chegar no outro vôo (CO 647) que estava vindo, cuja previsão de chegada era 18:50.

Tentei relaxar, afinal nada mais poderia fazer a não ser esperar e... REZAR!!! Fui ao balcão da VASP, que fica do outro lado do aeroporto, e fiz o meu check-in do vôo Miami-São Paulo, cujo horário marcado para embarque era 19:40, com decolagem prevista para 20:50. Então, com mais calma, pude ler cuidadosamente as instruções que eu deveria seguir caso a minha bagagem não aparecesse em 5 dias. A que mais me animou, no 1o momento, foi a seguinte: "... you will receive a questionnaire requesting a complete listing of the contents of your bag"! Antes de escolher qual item encabeçaria a interessante lista – câmera digital de última geração, impressora HP 2000, kit completo de lentes e filtros para a minha Canon, ... –, lembrei-me que os filmes que bati durante estes 22 dias estavam na bendita mala. Mais do que rapidamente, desisti de desejar escrever aquele rol e roguei aos céus para reaver os 7 rolos Fuji Film, de 24 poses cada.

Estes devaneios me ajudaram a driblar o tempo, ainda mais quando vi que o horário previsto, não confirmado, para a chegada do vôo CO 647 havia recebido o acréscimo de 30 minutos: 19:20. Respirei fundo e disse: "Tudo bem, só vai atrasar meia hora... Eu ainda tenho tempo para pegar a mala (se ela vir, é claro), deixar no balcão da VASP e me dirigir ao portão em embarque".

Depois de muito empurrar o (quase impassível) ponteiro dos segundos, dirigi-me ao local devido para receber com indescritível alegria a 2a mala. Para aumentar a minha tranqüilidade, a bagagem só começou a rolar na esteira às 19:50. A cada mala, os neurônios da Turma B mudavam suas fichas (eles tinham inventando uma bolsa de apostas com quatro opções: i) a mala vai aparecer e ele vai embarcar; ii) a mala vai aparecer e ele não vai embarcar; iii) a mala não vai aparecer e ele não vai embarcar e iv) a mala não vai aparecer e ele vai embarcar).

19:55... e nada. Os passageiros do recente vôo começam a sair com suas malas, enquanto eu permaneço na espera, angustiante espera, pois havia colocado (por motivos óbvios) todas as minhas fichas na opção i).

Às 20:00, quando eu estava começando a cogitar a possibilidade de exercitar a minha flexibilidade – até que a opção iv) não é tão ruim assim! –, ela aparece. O meu susto em vê-la com o trinco da frente aberto, enquanto que os das laterais estavam lacrados, foi atropelado pela minha decisão de, inspirado pela performance de Barrichelo no GP da França de domingo passado, acelerar o máximo e, literalmente, correr da ala G até a ala C, para deixar o restante da minha muamba.

Cá estou, às 4:50 da manhã, desta 3a feira, 29 de junho, véspera do meu 31o natalício, a 12000 metros de altitude, voando a quase 1000 km/h, instantes antes de desembarcar em Garulhos. Estou de volta! :-)))

Será que as malas vieram?

Paulo Barguil
03/07/1999

 
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