Milênios, séculos, anos, meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos: o que é a eternidade?

“O pessimista se queixa do vento.
O otimista espera que ele mude.
O realista ajusta as velas”
WILLIAM WARD

Um dos índices que utilizo para medir a situação do meu humor é o nível das atividades dos neurônios da Turma B, aqueles que me ajudam a enxergar a vida de uma forma diferente, realçando detalhes que mereçam ser catalogados e prosados de forma original e alegre. Tenho assistido nos últimos dias a um dos mais baixos rendimentos já registrados dos supimpas microscópicos membros do meu corpo, responsáveis por mensagens sempre eletrizantes.

Antes que me perguntem se estou estressado, respondo em baixo tom (numa tentativa de não denunciar meu estado emocional): "Não, eu não estou". Mas, será que não? Será que uma decepção amorosa, mesmo que não compreendida (como se possível isto fosse...), pode ser a única responsável por essa mudança de vibração interna? Será que os astros, tão distantes e preocupados com suas rotas em virtude dos misteriosos e assassinos buracos negros, podem receber o fardo da minha alteração de humor?

Fosse eu mulher e nunca tivesse estudado a concepção sociológica de Max Weber – que se recusou explicar a realidade em esquemas simplistas de causa e conseqüência, e propôs uma análise multifatorial (Sociologia Compreensiva), por reconhecer a impossibilidade de se precisar o peso de cada um dos fatores na construção do Universo nas suas diversas manifestações –, encontraria na salvadora TPM a causa para os tons sombrios que coloram as minhas recentes manhãs, tardes, noites e madrugadas. Ainda mais, saberia que dentro de 3 ou 4 dias, a minha taxa hormonal voltaria ao normal, dando-me a garantia de que o equilíbrio voltaria a reinar... até a próxima menstruação! :-)

Como sou homem e acredito que a relativização é algo que deve ser buscado, decido que o mais sábio é desfrutar os afagos e as consolações que recebo dos amigos neste momento de crise, manifestações de uma generosidade indescritível. Transcrevo, a seguir, algumas passagens do texto "Quando a noite for branca", extraída do livro Sete Estrelas, que recebi na 6a passada do amigo Jeovah Maciel:

"Isto passa, amigo, passa. Passa como a madrugada, como o vento, como a chuva, como o tempo, como a beleza e a mocidade; passa como a onda do mar, como a alegria e o sofrimento; há de passar, como passa tudo. (...) O riso ainda é a melhor filosofia: ria. E conserve o olhar seguro, a atitude enérgica, o corpo ereto, embora a alma esteja de rastro, embora esteja enfermo este jovem coração que eu sei tão bom. (...) Fique tranqüilo, amigo – este desgosto há de passar. Lembre-se de que daqui a dez anos, talvez menos, quando o momento atual lhe vier à memória, será por um instante, mas não terá outra significação senão a de um momento infeliz que passou."

Diante do mistério da vida (e da morte), prefiro não ter que esperar dez anos para desfrutar de um novo olhar. Se não bastasse o meu sempre presente medo da visita inesperada da cadavérica senhora armada com foice, que me impediria de continuar os meus folguedos, é chegado o instante de viver o que defendi com tanto ardor na dissertação: ser feliz no presente, tempo cada vez mais fugaz e impreciso. Num gesto brusco, até mesmo para mim, começo a correr e olhando para o passado mostro-lhe a minha língua...

Duas certezas me visitam neste instante derradeiro: i) o título desta crônica é o maior já publicado por este site; ii) a amizade é semelhante a uma fonte existente entre pedras que jorra água ininterruptamente, sem que se possa percisar a sua nascente. Tanto melhor, pois tornam-se supérfluas as tentativas de se explicar o que não pode ser reduzido a esquemas lógicos, quase sempre insatisfatórios para falar de coisas indizíveis.

Paulo Barguil
31/05/1999

 
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