Crônicas terapêuticas

“A grandeza de um homem consiste em sua decisão
de ser mais forte que a condição humana”
ALBERT CAMUS

2a feira de manhã de ressaca. Não, eu não cai na gandaia ontem à noite... Apenas tive mais uma daquelas madrugadas em que o sono é engomado por uma mesma idéia, lembrando-me dos saudosos discos de vinil arranhados, quando a agulha tocava ininterruptamente um trecho da canção até que o ouvinte resolvesse se levantar da cadeira e colocá-la um pouco mais adiante. Logo eu, que sempre me vangloriei de não ter insônia ou outro distúrbio qualquer do sono!

Olho para o calendário e me lembro de que amanhã começa meu inferno astral. Será mesmo? Acho que ele começou há uns dias atrás, desde quando defendi a dissertação e fiquei sem aquela pressão de ter que terminar algo, encerrando (espero...) um ciclo que me acompanhou durante toda a minha vida. Procuro me divertir com a angústia de não estar angustiado com nada: é uma boa oportunidade para aprofundar as minhas lições do Zen.

O tempo chuvoso me impede de ir à praia. Mas, com o ânimo que me acompanha, nem com um sol forte e brilhante eu iria... Vago, então, pelos cômodos do apartamento – quarto (cama), sala (TV) e escritório (computador) – a procura de algo para fazer. Sou possuído por uma completa apatia, ou antes, o desejo de fazer nada. Aproveito este espírito e decido não brigar comigo. A certeza de que tudo passa tranqüiliza-me um pouco.

Ligo, enfim, o computador e leio as crônicas, depois de um jejum de 8 dias. Entre uma e outra, acompanho as partidas de tênis dos brasileiros (Gustavo Kuerten e Fernando Meligeni) em Roland Garros ao vivo. Quer dizer, nem tanto: o site do UOL não está atualizando o placar a cada final de game. Você acredita que existe gente que torce para eles perderem só para a mídia não mostrar as coisas boas da vida? Parece mentira, mas não é! Sábado eu ouvi alguém dizendo isso e quase não acreditei. Não bastasse a minha surpresa inicial, ele continuou afirmando que torceu contra o Brasil na Copa do Mundo!
:-(

Daquelas, recorto frases que me ajudam a entender como estou e o que (não) devo fazer: de Daniel Galera ("Sento na minha cama com os olhos entupidos de lágrimas"), de Leila Míccolis ("O que não estou procurando e reclamo por não achar?") e de Carla Dias ("As pessoas deveriam saber que há perguntas que não devem ser feitas"). Poderia terminar aceitando o consolo de Whisner Fraga, bastava que me colocasse no lugar do Ascendino e compreendesse que minhas aflições são vãs: afinal eu também sou imortal. Mas, devido à influência do Duju, talvez minha consolação resida, ironicamente, no oposto: na certeza de que sou mortal.

Viva o Brasil: Guga e Fininho ganharam!

Paulo Barguil
31/05/1999

 
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