Doutor da vida

Depois de uma semana repleta de emoções, nada como voltar à deliciosa monotonia, onde a incerteza do que farei amanhã de manhã não é motivo de angústia, mas de regato. É bem verdade que ainda estou me acostumando com essa mudança de parâmetros. Após anos sendo "alimentado" por uma cultura que privilegia e cobra de seus membros conquistas sucessivas, mesmo que desprovidas de um significado existencial, encontro fortes resistências internas e externas para continuar o meu aperfeiçoamento espiritual.

Você me acredita que meu melhor amigo, o Eduardo, no sábado passado (15/05), no dia seguinte à minha defesa da dissertação do Mestrado, já estava me convocando para tentar o Doutorado em agosto, num projeto coletivo de pesquisa? Admito que a idéia me interessa, mas será que ele não podia esperar um pouco e deixar eu, além de curtir por alguns dias a vitória conquistada, me recuperar do susto que ele havia me aprontado na véspera, quando, depois da apresentação do meu trabalho científico, ele me encheu de perguntas, ao contrário dos outros membros da banca?

Pensei, então, "Com um amigo desses, será que dá para ser feliz?" Mas, inspirando nas sábias lições do mestre Abu Zadim Contentim, explicitadas na crônicas dos dias 10 e 17 do corrente mês, conclui que eu era um felizardo, afinal o que poderia ter acontecido comigo se o Duju não gostasse de mim? Além do mais, ele só está me convidando para passar mais 4 anos da minha vida estudando! O que pode haver de ruim nisto, não é mesmo?

A questão é que meus planos atuais se resumem a aperfeiçoar os meus conhecimentos da orla marítima do Ceará, a desbravar um pouco o fascinante mundo da fotografias, a redescobrir o prazer de não ter hora para acordar nem para dormir, a organizar os meus álbuns de viagem, a folhear livros sem o compromisso de fichar e fazer resumos que facilitem uma posterior utilização bibliográfica, a ocupar minhas noites (ou tardes) freqüentando salas de cinema, a aprender a trabalhar com editores de Home Page, a escrever minhas crônicas semanalmente, a brincar mais com o Samuel, a aperfeiçoar o meu inglês, ...

Sinceramente, acredito que ser doutor da vida é mais difícil do que ser em Educação. Afinal, ali, ao contrário de aqui, é necessário bem mais do que uma mente pensante, mas um corpo desejante, saltitante. Quem sabe, amigo, daqui a uns 2 anos eu mude de idéia, heim?

Paulo Barguil
17/05/1999

 
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