Surpresas...

“A mais excitante felicidade é aquela gerada por coisas
que estão além do nosso controle"
OGDEN NASH

Samuel é uma garoto esperto: desde pequeno anuncia a quem quiser ouvir que adora receber surpresas. Assim, de quando em vez, ele pergunta: "Você tem surpresa para mim?". (A vida tem sido generosa com ele, pois ainda não descobriu que existem as agradáveis e as desagradáveis). Não sei se esta característica foi transmitida hereditariamente, mas eu também tenho um fascínio por surpresas, principalmente pelas do 1o grupo... :-)

Uma surpresa anunciada não é uma surpresa na acepção técnica da palavra, pois conforme o Aurélio surpresa é: "1. Ato ou efeito de surpreender(-se). 2. Aquilo que surpreende. 3. Acontecimento imprevisto: sobressalto. 4. Prazer inesperado." Não sei se a mania que a gente tem de dizer "Eu tenho uma surpresa" não tira o tom mágico do anúncio. Melhor, talvez, seja dispensar esta vaselina verbal e mandar ver o que se quer expressar, provocando no interlocutor um júbilo maior do que se deseja causar com aquele intróito.

A realização de um sonho, apesar de desejado e alimentado, pode ser uma grande surpresa. Afinal, qual é o menino que espera ter a sua paixão pela professora querida correspondida um dia (ou uma noite)?

A vida é tão surpreendente: a nossa tentativa de controlá-la, apegando-se a pessoas, situações, sentimentos, fruto da nossa crença de que a possuímos, além de ser inútil, pois ela ignora os nossos choros, os nossos reclames, é contraproducente, tudo o que ela espera de nós é braços abertos e um espírito sempre disposto a continuar descobrindo novas brincadeiras. Ainda bem que não precisei chegar a uma possível velhice para atônito decifrar o enigma-presente do Universo, já revelado por outros e usufruído por tão poucos.

Foi com uma alegria indescritível, típica de uma grande surpresa, que li a crônica da Andréa Havt: i) tanto pelo prazer de poder navegar pelas suas idéias dispostas no papel, coisa rara devida à sua jornada de trabalho – motivo mais aceitável do que dizer que ela não se dedica a esta arte pela recusa em acreditar que escreve muito bem, apesar das insistentes declarações do seu marido –; ii) como pelo alívio de saber que o meu atraso na redação do meu dever, digo, direito semanal não causou maiores transtornos ao editor.

Surpresa maior do que ler a crônica da Déa foi eu conseguir escrever esta.

Paulo Barguil
15/04/1999

 
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