A turma B

Um dos meus atuais passatempos preferidos é confabular despretensiosamente com os neurônios da turma B – composta por aqueles que não seguem tão fielmente as ordens emitidas pelo sistema nervoso central, o qual não sabe o que é pior: deixá-los juntos ou separá-los.

Se deixa juntos, eles provocam aquela festa, numa perigosa manifestação de ofensa à hierarquia; se tenta separá-los, objetivando uma maior fiscalização das suas eletrizantes mensagens, aqueles lépidos e inocentes meninos não se intimidam, não sossegam: não deixam os da turma A descansarem enquanto eles não encontrarem um novo caminho, motivo sempre de novos folguedos, para transmitir qualquer conteúdo, numa concordância explícita com Marshall McLuhan que afirmava que "o meio é a mensagem".

Inúmeras vezes já fui notificado das estripulias deles e chamado à atenção, motivo sempre de vergonha... Quando vou conversar com eles, explicar como me sinto nessas situações, clamar pelo bom senso deles, invariavelmente escuto: "O que é que eles (os neurônios comportados) têm que nós não temos? Conhecimentos? Que tolice!, as informações que eles dispõem são as mesmas a que temos acesso. Idéias? Ora, as nossas são interessantíssimas, embora, reconheçamos, que elas saiam um pouco das convenções... Medalhas? Acreditamos que os nossos sorrisos jogados ao vento são mais importante do que elas".

Dizer e fazer o que depois de ouvir tudo isto e muito mais? Reconheço, porém, que eles são bastante atenciosos e educados: sempre me escutam com atenção e prometem melhorar de comportamento. Quando ouço isso, ao contrário de ficar alegre, minha testa franze, começo a imaginar as próximas peças que eles vão aprontar. Afinal, sob que parâmetros eles vão se guiar nessa mudança de atitude? Nem precisa me responder, a pergunta foi só um ato reflexo.

Porém, estou aprendendo com eles as lições mais importantes da minha vida: como é frívola a necessidade de se buscar sempre o vencedor (e, consequentemente, o perdedor – pelo menos um...), de se querer ser sempre o melhor, o primeiro. É um aprendizado interessante, admito, pois nunca sei quando a lição vai começar: quando menos espero, o sinal está tocando. Apesar dessa dificuldade de adaptação, considero-me um cara de sorte, pois eles são bons mestres: estão sempre se divertindo. Eu acho que um dia eu chego lá...

Paulo Barguil
01/04/1999

 
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