As jogadas da vida

O Brasil é um país realmente exótico. Não me refiro somente à sua dimensão continental que dá moradia a um sem número de manifestações culturais, políticas, sexuais, religiosas, sociais e gastronômicas. Somos uma nação surpreendente: aqui você encontra tanto o que há de mais moderno, sem deixar nada a dever em relação ao chamado 1o mundo; bem como aquilo que envergonha àqueles que acreditam que o Homem é um animal racional – crianças morrendo de fome, pessoas sem água para beber, idosos sem atendimento médico, ...

De leste a oeste, desfilam crenças sobre a natureza de ser brasileiro. Uma delas me chama especial atenção, qual seja: a que afirma que o brasileiro tem memória curta, quando muito a tem! A afirmação é costumeiramente enunciada num tom fatalístico, próprio das pessoas que desconhecem o caráter dinâmico e desconcertante da natureza: quando todos pensam que ela vai avançar pela esquerda, ela corta e se envia pelo meio; quando todos apostam que ela vai passar a bola para o armador, ela arremessa em busca dos 3 pontos; quando todos pensam que ela vai levantar para o batedor, ela arrisca uma pingada...

Nos últimos tempos, fui contemplado com uma grande descoberta: é maravilhoso poder dizer para mim mesmo, em meio a um riso maroto, surpreendido pela última peça da vida: "Eu estava errado". Essa lição vem de encontro a tudo que tenho aprendido, pois, normalmente, não aceitamos ser contraditos. Preferimos gastar grande parte da nossa energia e do nosso tempo, procurando mostrar para nós mesmos e aos outros que estamos certos, que somos o melhores. Quanto desperdício...

A realidade sempre se me apresentou como um monta-cabeça (com infinitas peças e sem a resposta anexa, simplesmente porque ela não existe! Ou se existe, está sempre desatualizada...), motivo pelo qual não desperdiço nenhuma oportunidade de aprender mais e mais, num ritmo tão frenético que, se não fosse eu o sujeito, eu classificaria como obsessivo!
:-)))

Mas, sobre o que era mesmo que eu estava falando? Ah, sobre a alegada falta de memória do brasileiro, mormente no que se refere às presepadas dos nossos sempre criativos políticos. Não creio que haja um problema no "hardware" dos meus compatriotas, que ele esteja saindo apenas com uma vaga lembrança, no lugar de um HD de mais de 6GB. O computador humano também funciona em vários níveis, possui diferentes linguagens: muitas vezes, infelizmente, ela não consegue processar sistemas com "softwares" mais avançados, devido a inexistência de compiladores – programas capazes de entender programas escritos em linguagens distintas da linguagem de máquina –, limitando-se a processar aqueles escritos naquela – a velha subsistência.

É com alegria, que assisto, progressivamente, ao incremento da nossa compreensão da realidade, ainda mais nesse tempo em que os lobos tentam descaradamente vestir-se com peles de ovelhas, num acinte ao povo tão sofrido, sequioso apenas de respeito e dignidade. A falta de memória do brasileiro vem, pois, aqui e ali, sendo substituída por um engajamento social, a partir da crença de que "quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

Paulo Barguil
18/03/1999

 
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