Monta-Cabeça

Apesar de ter sido criada para permitir uma melhor comunicação entre os homens, a linguagem, por vezes, é motivo de desencontro entre as pessoas: seja pela impossibilidade de se expressar o que se deseja transmitir, seja pela dificuldade de se entender o que foi escutado, lido, mesmo que usando a nossa língua materna. Imagine a dificuldade que um professor estrangeiro que tive, quando um amigo seu ao lhe explicar que não poderia comparecer à reunião disse: "Meu carro está no prego". O coitado ficou imaginando um automóvel estacionado em cima de um...

Há, ainda, os casos em que uma palavra expressa exatamente o contrário do que está ocorrendo. Por exemplo, não sei por que o nome do brinquedo em que o jogador precisa juntar alguns recortes para formar uma figura é quebra-cabeça. Admito que alguns deles podem até nos dar esta impressão, afinal existem vários modelos: desde os infantis, com apenas uma dezena de peças até os que têm algumas milhares, destinados àqueles dispostos a ficar horas a fio envolvidos numa intrigante tarefa.

Mas, o que é a vida, senão um interminável quebra-cabeça, digo, monta-cabeça? Quem poderia imaginar que o Homem se desenvolve a partir de um alvo e uma seta, que formando um ponto milagroso se dividem de maneira seqüencial e determinada, onde cada célula sabe que lugar vai ocupar no novo ser? Para entender isso e muito mais, é que a Ciência tem aceitado a brincadeira oferecida pela natureza, procurando desvendar inúmeros mistérios e identificar infinitas ligações invisíveis (mas nem por isso inexistentes...) entre os elementos constituintes da realidade.

Melhor dizendo: foi a partir da aceitação individual dos nossos ancestrais para entender as coisas mais simples do mundo que a Ciência se constitui como tal. Ela, portanto, não tem vida própria: é necessário que cada um de nós continue, diariamente, montando e desmontando as nossas figuras n-dimensionais, compostas de sonhos, pensamentos, sentimentos, conhecimentos, ilusões, ...

Ao contrário do que se poderia pensar, este passatempo não é propriedade da Ciência, mas é a essência do viver humano. As recentes descobertas asseveram que os neurônios estão sempre estabelecendo conexões com os seus vizinhos, podendo cada um deles (em média, são 86 bilhões no adulto) se conectar até com outros 100.000. É por isso, que estamos, continuamente, colando, recortando e copiando as experiências que temos, as quais formam, deformam e reformam paisagens internas e externas.

Uma pessoa que desconhece que a vida é um grande recreio desperdiça momentos maravilhosos, tamanha a preocupação com a prova no horário seguinte, sem saber que, na verdade, o Mestre já está avaliando-a.

Paulo Barguil
10/03/1999

 
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