Aposentei-me aos 30 anos!

Depois de 25 anos e meio estudando (3 anos de pré-primário, 8 de 1o grau, 3 de 2o grau, 8 1/2 nas duas graduações e 3 no mestrado), decidi semana passada que era hora de me aposentar, afinal sempre ouvi dizer que eu era um estudante profissional. Não vou abrir mão desse meu direito constitucional (se não existe um artigo específico, creio que deveria existir, pois se todos somos iguais perante a lei, como explicar que os políticos possam se aposentar com apenas 4 anos de "árduo trabalho"?).

Talvez lhe chocasse se eu confessasse que esta decisão não difícil de ser tomada e que ela foi um dos prêmios que me dei após concluir a dissertação de Mestrado. É claro que vou sentir saudades das inúmeras atividades escolares, principalmente das reuniões de trabalho de equipe, em que a merenda e a conversa alimentavam o nosso corpo e espírito. E o que dizer das provas? Fonte inesgotável de aventuras, onde mais importante do que a nota obtida era vencer os obstáculos impostos pelo professor para vivenciar a Boa-Nova, expressa na solidariedade ao irmão que se encontrava em dificuldades para resolver alguma questão...

A sensação de liberdade dos primeiros dias foi, aos poucos, sendo substituída por uma sensação de vazio... Tenho todo o tempo do mundo: o que fazer? Senti-me, então, como um viciado que está tentando se recuperar: na falta de ocupação, voltei ao antigo hábito. Liguei para o Eduardo e pedi que ele me desse algum dever de casa. Ainda bem que ele é meu amigo e me passou uma bem fácil: folhear o livro Comédias da vida pública, de Luis Fernando Veríssimo, e escolher dentre as 266 crônicas algumas, por volta de 10, para uma atividade a ser desenvolvida com seus alunos.

Para que o clima de pressão fosse respeitado, eu teria apenas o domingo para realizar a tarefa. Devido à seriedade da situação, deitei-me na rede e comecei a me deleitar com alguns fatos históricos do Brasil nas últimas três décadas. 70 – a conquista da Copa do México; a repressão e a censura da ditadura militar. 80 – a bomba do Riocentro; a inflação e o FMI; Sarney: o plano Cruzado (congelamento de preços e salários) e a população brincando de ser "Fiscal do Sarney". 90 – Collor: o confisco da poupança com o plano Brasil Novo, Zélia, as fraudes do INSS, PC Farias, a Elba e o Eriberto, as cascatas da casa da Dinda, o impeachmant; Itamar: o topete, o Fusca, o Carnaval com Lílian Ramos, o Real e a antena que derrubou o Ricupero; FHC: a arte de conseguir superar o próprio discurso, fazendo exatamente o oposto daquilo que sempre defendeu, transformando-se num dos personagens mais cínicos do nosso país.

Quando acabei a 350a página, por volta de meio-dia da 2a feira, pensei: "Acabei o dever". Ledo engano. Devido à empolgação, acabei selecionando 32 crônicas, ultrapassando um pouco a quantidade solicitada pelo professor... Novo desafio: reduzir o plantel das mesmas e entregar a lista até às 15:30. Saio do trabalho às 15 horas, driblo com a Vitalina (alcunha da minha NX 150 vermelha) os carros e as gotas d'água que começam a cair 500 metros antes de chegar ao local marcado. Entrego o dever pontualmente, se considerarmos que um atraso de cinco minutos é apenas um pequeno detalhe.

"Ufa, consegui!". Tinha até me esquecido como é bom o friozinho na barriga...

Paulo Barguil
03/03/1999

 
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