CO2 ou O2?

"O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe
nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente."
GEN 2, 7

Em julho de 98, Duju (é como chamo Eduardo Júnior) me falou que estava criando um site com crônicas e que eu estava convocado para colaborar. Na ocasião, disse-lhe que estava "ocupado" com a dissertação e que quando a concluísse, responderia positivamente à convocação literária. Para minha alegria, a menina (tratamento carinhoso àquele trabalho acadêmico) foi encerrada há alguns dias e então senti-me em xeque: ou começaria a escrever as crônicas tão ardorosamente prometidas ou as minhas palavras seriam reduzidas à cinza, o que não seria um grande problema, afinal outro não é o meu destino...

O meu desejo, porém, é escrever, compartilhando com vocês os devaneios que insistem em ir e vir, num frenético ritmo, fazendo me lembrar da dinâmica do átomo, que, conforme a microfísica para ser devidamente entendido, precisa ser considerado como fruto do binômio energia (ondas) e matéria (corpúsculo), trafegando ininterruptamente entre essas duas realidades, num pega-pega infinito, deixando atônito e perplexo o Homem, sequioso de compreender as coisas, de enquadrá-las, de conceituá-las, de acreditar ser possível domá-las, controlá-las.

Nada mais refrescante do que uma brisa marítima, quando se mora numa cidade cuja temperatura média é de 30°C, onde quando menos roupa se veste é melhor e ir à praia, tomar um cerveja geladinha e comer caranguejo é mais do que um passatempo: é um ritual necessário em certos dias onde o sol ignora todas as súplicas dos terráqueos.

Nada mais torturante do que uma brisa fria, quando os pés tentam se equilibrar no gelo e os termômetros entram de greve depois de chegar a 0°C, onde todo vestuário parece ser inútil e ficar em casa, debaixo de 3 cobertas, com o aquecedor ligado e vendo TV é mais do que um hobby: é o procedimento de sobrevivência acionado quando os lábios sequer conseguem rezar.

É engraçado que a respiração boca-a-boca seja na verdade um sopro, o qual contradiz o mecanismo normal da respiração: é o gás carbônico que a ativa, quando ela é interrompida por algum motivo. Isso é uma grande ironia, afinal quando algo de ruim acontece com a gente, não se busca o nocivo gás carbônico, mas o límpido oxigênio: "Preciso sair para respirar um pouco!". Assim, este e aquele tanto podem matar como ressuscitar, dependendo da ocasião e de quem esteja dando o beijo...

Proponho, então, que além de se falar "Bom dia", "Boa tarde", "Boa noite", "Seja feliz", "Bom apetite" e "Tenha cuidado" a gente comece a dizer "Boa respiração", cabendo ao ouvinte decidir o que deseja inspirar e expirar, pois viver é um presente divino, cujo usufruto é escolhido por cada um. É claro que eu não sou louco de desprezar as determinações sócio-históricas (Deus me livre de ser chamado de alienado logo na 1a crônica!), mas apenas não sucumbo frente a elas, pois acredito na capacidade do Homem de ir além, apesar de.

O garçom se aproxima e lhe pergunta: "O que você vai querer hoje, freguês: CO2 ou O2?"

Paulo Barguil
20/02/1999

 
www.paulobarguil.pro.br